Em 2026, a revista europeia EFORT Open Reviews publicou o artigo “The approach to hip instability in children with cerebral palsy: an umbrella review” (Abordagem da instabilidade do quadril em crianças com paralisia cerebral: uma revisão guarda-chuva). O Dr. Leonardo Cury Abrahão é um dos oito ortopedistas pediátricos brasileiros que assinam o trabalho, feito em colaboração com a Sociedade Brasileira de Ortopedia Pediátrica (SBOP) para servir de base científica a uma diretriz nacional de vigilância do quadril.
A seguir, explicamos em linguagem simples o que o estudo encontrou e o que isso significa para as famílias.
O que é uma “revisão guarda-chuva”?
É um estudo que reúne e avalia outras revisões sistemáticas — que, por sua vez, já reúnem dezenas de pesquisas. É um dos níveis mais amplos de síntese da evidência científica. Os autores buscaram em nove bases de dados internacionais as revisões publicadas entre 2004 e 2024 sobre crianças e adolescentes com paralisia cerebral: de 754 registros encontrados, 25 revisões sistemáticas preencheram os critérios e foram analisadas, com avaliação da qualidade metodológica de cada uma.
Por que o quadril merece tanta atenção
Na paralisia cerebral, o desequilíbrio muscular, o tônus alterado e as mudanças no formato dos ossos podem fazer a cabeça do fêmur migrar aos poucos para fora do acetábulo. Esse deslocamento é medido na radiografia pelo percentual de migração de Reimers. Se progride, pode levar à subluxação e à luxação, com dor, dificuldade para sentar e para andar e piora da qualidade de vida.
O risco acompanha o nível funcional da criança. Segundo os dados reunidos no artigo, o deslocamento do quadril atinge cerca de 35% das crianças com paralisia cerebral — de praticamente 0% no nível I da escala GMFCS a cerca de 90% no nível V.

O que o estudo encontrou
1. A vigilância do quadril funciona
Programas de vigilância do quadril — exame físico e radiografias em intervalos regulares — reduziram as luxações e a necessidade de cirurgias reconstrutivas, e praticamente eliminaram a necessidade de cirurgias de salvamento. Com base nos achados, os autores recomendam:
- iniciar a vigilância até os 2 anos de idade — ou já no diagnóstico, nas crianças mais novas;
- acompanhamento mais frequente nos níveis GMFCS IV e V, e atenção especial também no nível III;
- acompanhamento menos frequente nos níveis I e II, com exceção de alguns padrões de hemiplegia de maior risco;
- manter o acompanhamento após o fim do crescimento em pacientes que não andam e têm fatores de risco, como obliquidade da bacia ou escoliose.
O artigo também destaca que, a partir de um percentual de migração em torno de 46%, o deslocamento não costuma regredir sozinho.
2. Postura e controle do tônus: benefícios, mas sem prevenir o deslocamento
Órteses, sistemas de posicionamento e parapódios melhoram outros aspectos — como a densidade óssea —, mas não mostraram efeito consistente na prevenção do deslocamento do quadril. O mesmo vale para a toxina botulínica, a rizotomia dorsal seletiva e o baclofeno intratecal: são tratamentos importantes para a espasticidade, mas a evidência de que protejam o quadril é incerta.
3. Cirurgias preventivas
As liberações musculares isoladas (como a dos adutores) apresentaram altas taxas de recorrência, embora possam adiar a cirurgia óssea. A hemiepifisiodese proximal do fêmur — técnica minimamente invasiva que orienta o crescimento do osso — melhorou os parâmetros radiográficos, mas com necessidade frequente de novos procedimentos.
4. Cirurgias reconstrutivas
Quando o deslocamento é maior (em geral, acima de 40% a 50%), a reconstrução do quadril é considerada. Nesse ponto, a combinação de osteotomias do fêmur e da bacia apresentou resultados melhores e menos reluxações do que a osteotomia do fêmur isolada.
5. Cirurgias de salvamento
Quando o quadril já não pode ser reconstruído, procedimentos como a osteotomia valgizante e a ressecção da cabeça do fêmur aliviaram a dor na maioria dos casos. A artrodese (fusão) do quadril teve resultados ruins e, em geral, não é recomendada. A prótese total de quadril melhorou dor e função, mas com taxa alta de complicações.
6. Segurança na cirurgia
Medicamentos antifibrinolíticos, como o ácido tranexâmico, reduziram o sangramento em parte dos estudos, mas a evidência ainda não permite uma conclusão definitiva sobre o uso de rotina.
E a dor?
A relação entre deslocamento e dor é menos direta do que se imagina. As subluxações graves concentram o maior risco de dor, e a vigilância, embora melhore os números da radiografia, nem sempre se traduz em ganho de função ou de qualidade de vida. Por isso os autores defendem que as decisões priorizem função, conforto e qualidade de vida, com expectativas realistas combinadas com a família.
Limites do conhecimento atual
Parte importante das revisões analisadas tinha qualidade metodológica baixa, com populações e tratamentos muito diferentes entre si. O artigo aponta com clareza o que já está bem estabelecido — como o valor da vigilância — e onde ainda faltam estudos de maior qualidade.
O que isso significa para a sua família
- Se a criança tem paralisia cerebral, pergunte sobre a vigilância do quadril: ela deve começar cedo, mesmo sem dor.
- A frequência das radiografias depende sobretudo do nível GMFCS e da idade.
- O tratamento é sempre individual: considera o nível funcional, a idade, a radiografia, a dor e os objetivos da criança e da família.
Tedesco AP, Melanda A, Moshe D, Rolim Filho E, Blumetti FC, Cury Abrahão L, Morais Filho MC, Moreno Grangeiro P. The approach to hip instability in children with cerebral palsy: an umbrella review. EFORT Open Reviews. 2026;11:208–223.
doi.org/10.1530/EOR-2025-0114 · acesso aberto (CC BY 4.0)
Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica. Diagnóstico e tratamento dependem de avaliação individual.